O tratado de Bretton Woods foi um marco que redesenhou o funcionamento do capitalismo.
Lado A
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A segunda grande guerra ainda não havia terminado em julho de 1944, quando todo o sistema financeiro global se encontrava destroçado. As nações ainda tinham seu foco principal na campanha contra os países do Eixo. As nações, de uma forma geral, desde a grande depressão de 1929, começaram a adotar políticas para reverter o quadro de queda drástica da produção, do comércio e dos postos de trabalho. Com o objetivo de enfrentar a crescente incapacidade de fazer frente aos problemas advindos do crash de 1929. A forma adotada para minimizar os problemas que se avolumavam durante os anos 1930 foi o que se convencionou chamar de política do empobreça teu vizinho (beggar thy neighbor), caracterizada por aumentos de tarifas aduaneiras sobre a importação, utilizadas como forma de redução de déficits na balança comercial entre as nações. Em meio à este cenário extremamente preocupante, realizou-se na cidade de Bretton Woods, nos EUA, a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas. Quarenta e quatro países tomaram assento nesta reunião, encontrando-se o Brasil entre seus participantes. Na agenda, a reconstrução do capitalismo mundial através do estabelecimento de regras que regulassem a política econômica internacional e que garantissem a estabilização monetária das nações.
De qualquer forma, o número de participantes não pode ser considerado como representativo de um processo amplo e de significativa importância. Abrangendo países que em sua maioria absoluta passavam por impossibilidades de sentarem-se à mesa em pé de igualdade com os EUA, chega-se a conclusão de que quem comandou e deu as cartas foram de fato os norte americanos. Tem-se forçosamente que se levar em conta que de todas as nações que ali se reuniram, apenas duas, EUA e Inglaterra, reuniam condições efetivas de influir nas decisões do encontro. O primeiro se encontrava numa posição muito superior, pois que, a exceção de Pearl Harbor, a guerra não chegou a alcançar seu território. Os países do Eixo evidentemente não estavam representados naquele contexto. A União Soviética teve participação secundária nas negociações, assim como, os países menos desenvolvidos. A França, por sua vez, ainda se encontrava ocupada e parte significativa da Europa completamente arrasada. Portanto, uma conferência onde tudo se evidenciava extremamente favorável aos interesses norte americanos.
Na reunião ficou acordado que cada país deveria manter congelada a taxa de câmbio de sua moeda em relação ao dólar, com uma pequena margem de flutuação de até 1%, sendo que a moeda norte americana deveria ter o ouro como seu padrão de valor (lastro). Para supervisionar a aplicação destas regras, instituições multilaterais foram criadas. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional estariam encarregados de acompanhar o novo sistema financeiro criado, como também, garantir sua liquidez. Criou-se então as condições para atuação de um sistema liberal que tinha como base o mercado e o livre fluxo de comércio e capitais. Em meio à este cenário, onde o capitalismo viveu seu apogeu, foi que surgiu a figura dos EUA como seu destacado representante. Sua moeda, desde então, domina todas as transações comerciais. Com esta superioridade em capacidade monetária e atingindo um alto nível nos setores industrial, tecnológico e militar, indiscutivelmente o grande beneficiado pela observância das regras estabelecidas em Bretton Woods foi o governo norte americano. Sem negar, obviamente, que o capitalismo ganhou um novo ímpeto, acabando por beneficiar por contaminação outras nações, principalmente as do bloco europeu, mesmo que estas não tenham colhido resultados semelhantes aos que os EUA colheram.
Na conferência os norte americanos deixavam expostos seus planos acalentados desde o primeiro conflito mundial, que era o de estabelecer uma nova ordem financeira e econômica global baseada no livre comércio e plena liberdade de movimentação de capitais. Tudo teria ocorrido como voo em céu de brigadeiro para os interesses norte americanos se ingleses não tivessem colocado sobre a mesa uma proposta defendida por John Maynard Keynes em oposição a proposta dos EUA defendida por Harry Dexter White. A proposta de Keynes continha a criação do International Clearing Union (ICU). Uma espécie de banco central dos bancos centrais que ficaria responsável de registrar e compensar todos os pagamentos internacionais a partir de uma moeda mundial única. A moeda global não seria controlada por qualquer país. Assim, esperava-se que sua criação pudesse gerar uma maior harmonia nas relações entre as nações. O ICU além de funcionar como espécie de regulador de bancos centrais, também teria a capacidade de conceder crédito aos países associados que estivessem em dificuldades na sua balança de pagamentos. Conforme a proposta britânica, as nações poderiam adotar políticas protecionistas com a finalidade de combater o desemprego, como também, para trazer o equilíbrio para suas contas externas. Além do que, as taxas de câmbio deveriam ser fixas, porém ajustáveis.
A proposta norte americana de Harry White mantinha o ouro como meio de pagamento internacional, mas, somente o dólar teria seu valor lastreado em ouro. A equivalência seria de US$ 35 por cada onça de ouro. Todos os outros países ajustariam o valor de suas moedas a partir do dólar e manteriam a paridade fixa. Desta forma o dólar conquistaria uma condição única neste cenário. Aparentemente os EUA ainda mantinham a faca e o queijo sob seu domínio, mas aos poucos as coisas foram tomando contornos complicados.
A princípio tudo ocorreu a contento para os norte americanos, com exceção da única proposta que os ingleses conseguiram emplacar: o controle de fluxo de capitais de curto prazo. A estabilidade das taxas de câmbio era peça fundamental neste novo arranjo, uma vez que a política de desvalorização cambial (beggar thy neighbor = empobreça teu vizinho) aplicada no pós 1929 foram consideradas como uma das causas que provocaram o segundo conflito mundial. Assim como, ao meu ver com muita razão, acreditava-se fortemente no papel desempenhado pelas finanças internacionais no desencadeamento da grande depressão. Era então de se desejar um ponto final na atuação escabrosa da banca em relação as taxas cambiais flutuantes. O ICU de Keynes não vingou e então surge para ocupar este espaço o Fundo Monetário Internacional (FMI), com a mesma finalidade: administrar o sistema internacional de pagamentos. Outra de suas atribuições seria a de promover a cooperação monetária e proporcionar auxílio aos países que passassem por dificuldades nas suas contas externas. E evidentemente o dólar não faria parte deste contexto. Ele não poderia sofrer ajustes, sem que colocasse em risco a ordem monetária internacional estabelecida.
Enquanto isso em Wall Street, nos círculos da grande finança, a criação de uma instituição bancária que viria disputar o monopólio dos bancos no mercado internacional de crédito era alvo de críticas sabotadoras dos gigantes do mercado estabelecidos em Nova Iorque. Os banqueiros não aceitavam ter que dividir seu poder sobre o crédito internacional com uma instituição financiada por várias nações, entre elas o próprio EUA.
O plano no pós guerra prosseguia de acordo com as necessidades dos EUA. Para os norte americanos tratava-se de impedir que as nações do eixo que foram derrotadas na guerra alcançassem um desenvolvimento que pudesse voltar a confrontar novamente as grandes potências. Uma Alemanha esfacelada e agrária, assim como, um Japão também agrário. Com o advento da guerra fria o cenário se modifica por completo. Foi a partir da ameça soviética que a política externa norte americana assume uma nova roupagem e encara como prioridade o desenvolvimento econômico de seus aliados na Europa e Ásia. Em 1947 entra em cena o Plano Marshall. Os EUA promoveram grandes investimentos e transferiram muito conhecimento tecnológico, como também, chegaram a apoiar algumas medidas protecionistas, desvalorizações cambiais e medidas aduaneiras mesmo que fossem danosas aos seus interesses.
Lado B
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Desta política resultou a rápida recuperação econômica dos países aliados e crescente aumento das importações norte americanas. Foi então, que em 1971, saindo de uma situação superavitária, os EUA apresentaram seu primeiro déficit. Além do que, com o fortalecimento dos países aliados a liderança norte americana era colocada em xeque. A França, em 1965, questiona fortemente o papel do dólar como meio de pagamento internacional. De Gaulle fala em privilégio exorbitante alcançado pelos EUA no sistema monetário internacional, afirmando que não estaria mais obrigado a aceitar o dólar, inclusive, passou a trocar seus dólares excedentes por ouro do Fort Knox.
O governo norte americano tinha pela frente o seguinte dilema: a necessidade de recuperar sua economia, contudo, não poderia desvalorizar o dólar sem quebrar as regras de Bretton Woods. Pois, foi então que tentou-se convencer os demais países a valorizarem suas moedas, assim, o dólar seria desvalorizado sem que o preço oficial do ouro em dólar variasse. Os aliados não aceitaram. A partir de então os EUA boicotaram todas as propostas de reforma monetária que restringisse o papel do dólar no sistema monetário internacional. E foi então, que em 15 de agosto de 1971, devido as pressões protecionistas do congresso norte americano, devido a uma queda da competitividade e por não conseguir qualquer acordo com os países aliados, Nixon opta unilateralmente pela ruptura do padrão ouro. Assim como, criou controles internos de preços e salários, como também, estabeleceu uma tarifa externa sobre as importações. Tais regras seriam mantidas até que os aliados chegassem a um novo acordo, o que só veio a acontecer em 1973. A decisão de Nixon veio a ser ratificada em 1973 pelas principais potências capitalistas. A partir de então o sistema financeiro internacional passou a conviver com taxas de câmbio flutuantes e mantendo a hegemonia do dólar.
A desculpa para romper com o acordo baseou-se no argumento de que o desequilíbrio externo dos EUA era decorrente das práticas comerciais e cambiais desleais dos países europeus, como também, do Japão. Hoje percebe-se que esta determinação do governo norte americano teve um impacto muito maior do que se poderia imaginar na época. Com o passar dos anos verificou-se que o fim do padrão ouro não foi uma questão aleatória, sem intenções secundárias, como também, não se tratou de uma questão que se apresentou de forma natural no dia a dia do mercado internacional, mas que partiu sim de uma atuação política bem articulada estrategicamente. Surgiu desde então um novo modelo monetário, o dólar flexível, algo inimaginável nas relações monetárias internacionais. A pergunta para a qual nunca conseguiremos resposta, a bem da verdade deveria dizer quase nunca, é a seguinte: A quem beneficia?
- Ao povo norte americano, que assiste ao endividamento gigantesco do seu país e pressente para quem vai sobrar a conta?
- Ao governo norte americano, que é quem deve controlar todo este endividamento?
- Ao complexo industrial militar dos EUA, que a cada ano contempla sua verba sendo aquinhoada com aumentos generosos no orçamento(*)?
- Ou ao FED (**), que controla a emissão de moedas dos EUA e por essa honraria tem que ser remunerado?
Quem quiser que acredite nas diferenças entre Trump e Hillary. Que algum destes candidatos, ou aqueles que por ventura fazem parte do jogo democrático das nações (com raríssimas exceções), venha a alterar o quadro, passando por cima do que está estabelecido historicamente entre as forças que operam nos bastidores, as quais, a sociedade por completo desconhecimento dos personagens e das suas reais capacidades, teimosamente crê que estão a praticar o bom jogo. Crê que por meio do voto, estes capatazes do status quo, estarão a serviço de seus desejos e ambições.
(*) Para que assim seja, há que existir ameaça. Conforme o caso, temos duas: a ameaça terrorista e a ameaça russa.
(**) Banco central dos EUA. Instituição privada em mãos do setor bancário.