terça-feira, 27 de setembro de 2016

Acordo De Bretton Woods - Lado A, Lado B

O tratado de Bretton Woods foi um marco que redesenhou o funcionamento do capitalismo.

 

Lado A

Canal no youtube: erospsiquejr

A segunda grande guerra ainda não havia terminado em julho de 1944, quando todo o sistema financeiro global se encontrava destroçado. As nações ainda tinham seu foco principal na campanha contra os países do Eixo. As nações, de uma forma geral, desde a grande depressão de 1929, começaram a adotar políticas para reverter o quadro de queda drástica da produção, do comércio e dos postos de trabalho. Com o objetivo de enfrentar a crescente incapacidade de fazer frente aos problemas advindos do crash de 1929. A forma adotada para minimizar os problemas que se avolumavam durante os anos 1930 foi o que se convencionou chamar de política do empobreça teu vizinho (beggar thy neighbor), caracterizada por aumentos de tarifas aduaneiras sobre a importação, utilizadas como forma de redução de déficits na balança comercial entre as nações. Em meio à este cenário extremamente preocupante, realizou-se na cidade de Bretton Woods, nos EUA, a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas. Quarenta e quatro países tomaram assento nesta reunião, encontrando-se o Brasil entre seus participantes. Na agenda, a reconstrução do capitalismo mundial através do estabelecimento de regras que regulassem a política econômica internacional e que garantissem a estabilização monetária das nações.

De qualquer forma, o número de participantes não pode ser considerado como representativo de um processo amplo e de significativa importância. Abrangendo países que em sua maioria absoluta passavam por impossibilidades de sentarem-se à mesa em pé de igualdade com os EUA, chega-se a conclusão de que quem comandou e deu as cartas foram de fato os norte americanos. Tem-se forçosamente que se levar em conta que de todas as nações que ali se reuniram, apenas duas, EUA e Inglaterra, reuniam condições efetivas de influir nas decisões do encontro. O primeiro se encontrava numa posição muito superior, pois que, a exceção de Pearl Harbor, a guerra não chegou a alcançar seu território. Os países do Eixo evidentemente não estavam representados naquele contexto. A União Soviética teve participação secundária nas negociações, assim como, os países menos desenvolvidos. A França, por sua vez, ainda se encontrava ocupada e parte significativa da Europa completamente arrasada. Portanto, uma conferência onde tudo se evidenciava extremamente favorável aos interesses norte americanos.
    
Na reunião ficou acordado que cada país deveria manter congelada a taxa de câmbio de sua moeda em relação ao dólar, com uma pequena margem de flutuação de até 1%, sendo que a moeda norte americana deveria ter o ouro como seu padrão de valor (lastro). Para supervisionar a aplicação destas regras, instituições multilaterais foram criadas. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional estariam encarregados de acompanhar o novo sistema financeiro criado, como também, garantir sua liquidez. Criou-se então as condições para atuação de um sistema liberal que tinha como base o mercado e o livre fluxo de comércio e capitais. Em meio à este cenário, onde o capitalismo viveu seu apogeu, foi que surgiu a figura dos EUA como seu destacado representante. Sua moeda, desde então, domina todas as transações comerciais. Com esta superioridade em capacidade monetária e atingindo um alto nível nos setores industrial, tecnológico e militar, indiscutivelmente o grande beneficiado pela observância das regras estabelecidas em Bretton Woods foi o governo norte americano. Sem negar, obviamente, que o capitalismo ganhou um novo ímpeto, acabando por beneficiar por contaminação outras nações, principalmente as do bloco europeu, mesmo que estas não tenham colhido resultados semelhantes aos que os EUA colheram.

Na conferência os norte americanos deixavam expostos seus planos acalentados desde o primeiro conflito mundial, que era o de estabelecer uma nova ordem financeira e econômica global baseada no livre comércio e plena liberdade de movimentação de capitais. Tudo teria ocorrido como voo em céu de brigadeiro para os interesses norte americanos se ingleses não tivessem colocado sobre a mesa uma proposta defendida por John Maynard Keynes em oposição a proposta dos EUA defendida por Harry Dexter White. A proposta de Keynes continha a criação do International Clearing Union (ICU). Uma espécie de banco central dos bancos centrais que ficaria responsável de registrar e compensar todos os pagamentos internacionais a partir de uma moeda mundial única. A moeda global não seria controlada por qualquer país. Assim, esperava-se que sua criação pudesse gerar uma maior harmonia nas relações entre as nações. O ICU além de funcionar como espécie de regulador de bancos centrais, também teria a capacidade de conceder crédito  aos países associados que estivessem em dificuldades na sua balança de pagamentos. Conforme a proposta britânica, as nações poderiam adotar políticas protecionistas com a finalidade de combater o desemprego, como também, para trazer o equilíbrio para suas contas externas. Além do que, as taxas de câmbio deveriam ser fixas, porém ajustáveis.

A proposta norte americana de Harry White mantinha o ouro como meio de pagamento internacional, mas, somente o dólar teria seu valor lastreado em ouro. A equivalência seria de US$ 35 por cada onça de ouro.  Todos os outros países ajustariam o valor de suas moedas a partir do dólar e manteriam a paridade fixa. Desta forma o dólar conquistaria uma condição única neste cenário. Aparentemente os EUA ainda mantinham a faca e o queijo sob seu domínio, mas aos poucos as coisas foram tomando contornos complicados.

A princípio tudo ocorreu a contento para os norte americanos, com exceção da única proposta que os ingleses conseguiram emplacar: o controle de fluxo de capitais de curto prazo. A estabilidade das taxas de câmbio era peça fundamental neste novo arranjo, uma vez que a política de desvalorização cambial (beggar thy neighbor = empobreça teu vizinho) aplicada no pós 1929 foram consideradas como uma das causas que provocaram o segundo conflito mundial. Assim como, ao meu ver com muita razão, acreditava-se fortemente no papel desempenhado pelas finanças internacionais no desencadeamento da grande depressão. Era então de se desejar um ponto final na atuação escabrosa da banca em relação as taxas cambiais flutuantes. O ICU de Keynes não vingou e então surge para ocupar este espaço o Fundo Monetário Internacional (FMI), com a mesma finalidade: administrar o sistema internacional de pagamentos. Outra de suas atribuições seria a de promover a cooperação monetária e proporcionar auxílio aos países que passassem por dificuldades nas suas contas externas. E evidentemente o dólar não faria parte deste contexto. Ele não poderia sofrer ajustes, sem que colocasse em risco a ordem monetária internacional estabelecida.

Enquanto isso em Wall Street, nos círculos da grande finança, a criação de uma instituição bancária que viria disputar o monopólio dos bancos no mercado internacional de crédito era alvo de críticas sabotadoras dos gigantes do mercado estabelecidos em Nova Iorque. Os banqueiros não aceitavam ter que dividir seu poder sobre o crédito internacional com uma instituição financiada por várias nações, entre elas o próprio EUA.

O plano no pós guerra prosseguia de acordo com as necessidades dos EUA. Para os norte americanos tratava-se de impedir que as nações do eixo que foram derrotadas na guerra alcançassem um desenvolvimento que pudesse voltar a confrontar novamente as grandes potências. Uma Alemanha esfacelada e agrária, assim como, um Japão também agrário. Com o advento da guerra fria o cenário se modifica por completo. Foi a partir da ameça soviética que a política externa norte americana assume uma nova roupagem e encara como prioridade o desenvolvimento econômico de seus aliados na Europa e Ásia. Em 1947 entra em cena o Plano Marshall. Os EUA promoveram grandes investimentos e transferiram muito conhecimento tecnológico, como também,  chegaram a apoiar algumas medidas protecionistas, desvalorizações cambiais e medidas aduaneiras mesmo que fossem danosas aos seus interesses.

Lado B 

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Desta política resultou a rápida recuperação econômica dos países aliados e crescente aumento das importações norte americanas. Foi então, que em 1971, saindo de uma situação superavitária, os EUA apresentaram seu primeiro déficit. Além do que, com o fortalecimento dos países aliados  a liderança norte americana era colocada em xeque. A França, em 1965, questiona fortemente o papel do dólar como meio de pagamento internacional. De Gaulle fala em privilégio exorbitante alcançado pelos EUA no sistema monetário internacional, afirmando que não estaria mais obrigado a aceitar o dólar, inclusive, passou a trocar seus dólares excedentes por ouro do Fort Knox.

O governo norte americano tinha pela frente o seguinte dilema: a necessidade de recuperar sua economia, contudo, não poderia desvalorizar o dólar sem quebrar as regras de Bretton Woods. Pois, foi então que tentou-se convencer os demais países a valorizarem suas moedas, assim, o dólar seria desvalorizado sem que o preço oficial do ouro em dólar variasse. Os aliados não aceitaram. A partir de então os EUA boicotaram todas as propostas de reforma monetária que restringisse o papel do dólar no sistema monetário internacional. E foi então, que em 15 de agosto de 1971, devido as pressões protecionistas do congresso norte americano, devido a uma queda da competitividade e por não conseguir qualquer acordo com os países aliados, Nixon opta unilateralmente pela ruptura do padrão ouro. Assim como, criou controles internos de preços e salários, como também, estabeleceu uma tarifa externa sobre as importações. Tais regras seriam mantidas até que os aliados chegassem a um novo acordo, o que só veio a acontecer em 1973. A decisão de Nixon veio a ser ratificada em 1973 pelas principais potências capitalistas. A partir de então o sistema financeiro internacional passou a conviver com taxas de câmbio flutuantes e mantendo a hegemonia do dólar.

A desculpa para romper com o acordo baseou-se no argumento de que o desequilíbrio externo dos EUA era decorrente das práticas comerciais e cambiais desleais dos países europeus, como também, do Japão. Hoje percebe-se que esta determinação do governo norte americano teve um impacto muito maior do que se poderia imaginar na época. Com o passar dos anos verificou-se que o fim do padrão ouro não foi uma questão aleatória, sem intenções secundárias, como também, não se tratou de uma questão que se apresentou de forma natural no dia a dia do mercado internacional, mas que partiu sim de uma atuação política bem articulada estrategicamente. Surgiu desde então um novo modelo monetário, o dólar flexível, algo inimaginável nas relações monetárias internacionais. A pergunta para a qual nunca conseguiremos resposta, a bem da verdade deveria dizer quase nunca, é a seguinte: A quem beneficia?
  • Ao povo norte americano, que assiste ao endividamento gigantesco do seu país e pressente para quem vai sobrar a conta? 
  • Ao governo norte americano, que é quem deve controlar todo este endividamento?
  • Ao complexo industrial militar dos EUA, que a cada ano contempla sua verba sendo aquinhoada com aumentos generosos no orçamento(*)? 
  • Ou ao FED (**), que controla a emissão de moedas dos EUA e por essa honraria tem que ser remunerado?  
Uma evidente certeza resulta de tudo isso: toda a civilização planetária é a grande prejudicada com tudo isso. Pois todos sustentamos o endividamento e as armas norte americanas que são colocadas sobre nossas próprias cabeças. Cidadãos norte americanos aí também incluídos.

Quem quiser que acredite nas diferenças entre Trump e Hillary. Que algum destes candidatos, ou aqueles que por ventura fazem parte do jogo democrático das nações (com raríssimas exceções), venha a alterar o quadro, passando por cima do que está estabelecido historicamente entre as forças que operam nos bastidores, as quais, a sociedade por completo desconhecimento dos personagens e das suas reais capacidades, teimosamente crê que estão a praticar o bom jogo. Crê que por meio do voto, estes capatazes do status quo, estarão a serviço de seus desejos e ambições.

(*) Para que assim seja, há que existir ameaça. Conforme o caso, temos duas: a ameaça terrorista e a ameaça russa.  

(**) Banco central dos EUA. Instituição privada em mãos do setor bancário.     
   

domingo, 25 de setembro de 2016

A Rede Do Poder Corporativo Mundial

Nota do Projeto TB: lá se vão mais de seis anos de quando o Professor Ladislau Dowbor escreveu este esclarecedor artigo, deixando evidenciado o estágio em que se encontrava à época o sistema corporativo mundial. De lá para cá, infelizmente, o poder dos gigantescos oligopólios só fez aumentar. Mais fusões, mais canibalismo, mais concentração de riqueza e de poder. A análise que o Professor faz do estudo feito pelo ETH (Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica) é de inestimável importância para a compreensão do atual momento histórico.

 

A Rede Do Poder Corporativo Mundial

por: Ladislau Dowbor[1]

4 de janeiro de 2012



“There is a big difference between suspecting the existence of a fact and in empirically demonstrating it”[2]

Todos temos acompanhado, décadas a fio, as notícias sobre grandes empresas comprando-se umas às outras, formando grupos cada vez maiores, em princípio para se tornarem mais competitivas no ambiente cada vez mais agressivo do mercado. Mas o processo, naturalmente, tem limites. Em geral, nas principais cadeias produtivas, a corrida termina quando sobram poucas empresas, que em vez de guerrear, descobrem que é mais conveniente se articularem e trabalharem juntas, para o bem delas e dos seus acionistas. Não necessariamente, como é óbvio, para o bem da sociedade.

Controlar de forma organizada uma cadeia produtiva gera naturalmente um grande poder econômico, político e cultural. Econômico através do imenso fluxo de recursos – maior do que o PIB de numerosos países – político através da apropriação de grande parte dos aparelhos de Estado, e cultural pelo fato da mídia de massa mundial criar, através de pesadíssimas campanhas publicitárias, uma cultura de consumo e dinâmicas comportamentais que lhes interessa, gerando boa parte dos problemas globais que enfrentamos.

Uma característica básica do poder corporativo, é o quanto é pouco conhecido. As Nações Unidas tinham um departamento, UNCTC (United Nations Center for Transnational Corporations), que publicava nos anos 1990 um excelente relatório anual sobre as corporações transnacionais. Com a formação da Organização Mundial do Comércio, simplesmente fecharam o UNCTC e descontinuaram as publicações. Assim, o que é provavelmente o principal núcleo organizado de poder do planeta deixou simplesmente de ser estudado, a não ser por pesquisas pontuais dispersas pelas instituições acadêmicas, e fragmentadas por países ou setores.

O documento mais significativo que hoje temos sobre as corporações é o excelente documentário A Corporação (The Corporation), estudo científico de primeira linha, que em duas horas e doze capítulos mostra como funcionam, como se organizam, e que impactos geram. Outro documentário excelente, Trabalho Interno (Inside Job), que levou o Oscar de 2011, mostra como funciona o segmento financeiro do poder corporativo, mas limitado essencialmente a mostrar como se gerou a presente crise financeira. Temos também o clássico do setor, Quando as Corporações Regem o Mundo (When Corporations Rule the World) de David Korten. Trabalhos deste tipo nos permitem entender a lógica, geram a base do conhecimento disponível.

Mas nos faz imensa falta a pesquisa sistemática sobre como as corporações funcionam, como se tomam as decisões, quem as toma, com que legitimidade. O fato é que ignoramos quase tudo do principal vetor de poder mundial que são as corporações.

É natural e saudável que tenhamos todos uma grande preocupação em não inventarmos conspirações diabólicas, maquinações maldosas. Mas ao vermos como nos principais setores as atividades se reduziram no topo a poucas empresas extremamente poderosas, começamos a entender que se trata sim de poder político. Agindo no espaço planetário,  na ausência de governo mundial, e frente à fragilidade do sistema multilateral,  manejam grande poder sem nenhum contrapeso significativo.

A pesquisa do ETH (Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica)[3] vem pela primeira vez nesta escala iluminar a área com dados concretos. A metodologia é muito clara. Selecionaram 43 mil corporações no banco de dados Orbis 2007 de 30 milhões de empresas, e passaram a estudar como se relacionam: o peso econômico de cada entidade, a sua rede de conexões, os fluxos financeiros, e em que empresas têm participações que permitem controle indireto. Em termos estatísticos, resulta um sistema em forma de bow-tie ¸ou “gravata borboleta”, onde temos um grupo de corporações no “nó”, e ramificações para um lado que apontam para corporações que o “nó” controla, e ramificações para outro que apontam para as empresas que têm participações no “nó’.

A inovação, é que a pesquisa aqui apresentada realizou este trabalho para o conjunto das principais corporações do planeta, e expandiu a metodologia de forma a ir traçando o mapa de controles do conjunto, incluindo a escada de poder que às vezes corporações menores detêm, ao controlarem um pequeno grupo de empresas que por sua vez controla uma série de outras empresas e assim por diante. O que temos aqui, é exatamente o que o título da pesquisa apresenta, “a rede do controle corporativo global”.

Em termos ideológicos, o estudo está acima de qualquer suspeita. Antes de tudo, é importante mencionar que o ETH de Zurich faz parte da nata da pesquisa tecnológica no planeta, em geral colocado em segundo lugar depois do MIT dos Estados Unidos. Os pesquisadores do ETH detêm 31 prêmios Nobel, a começar por Albert Einstein. A equipe que trabalhou no artigo entende tudo de mapeamento de redes e da arquitetura que resulta. Stefano Battiston, um dos autores, assina pesquisas com J. Stiglitz, ex-economista chefe do Banco Mundial. O presente artigo, com 10 páginas, é curto para uma pesquisa deste porte, mas é acompanhado de 26 páginas de metodologia, de maneira a deixar transparentes todos os procedimentos. E em nenhum momento tiram conclusões políticas apressadas: limitam-se a expor de maneira muito sistemática o mapa do poder que resulta, e apontam as implicações.

A pesquisa é de difícil leitura para leigos, pela matemática envolvida. Pela importância que representa para a compreensão de como se organiza o poder corporativo do planeta, resolvemos expor da maneira mais clara possível os principais aportes, ao mesmo tempo que disponibilizamos abaixo o link do artigo completo. As notas que seguem podem ser vistas como uma resenha expandida.

O que resulta da pesquisa é claro: “A estrutura da rede de controle das corporações transnacionais impacta a competição de mercado mundial e a estabilidade financeira. Até agora, apenas pequenas amostras nacionais foram estudadas e não havia metodologia apropriada para avaliar globalmente o controle. Apresentamos a primeira pesquisa da arquitetura da rede internacional de propriedade, junto com a computação do controle que possui cada ator global. Descobrimos que as corporações transnacionais formam uma gigantesca estrutura em forma de gravata borboleta (bow-tie), e que uma grande parte do controle flui para um núcleo (core) pequeno e fortemente articulado de instituições financeiras. Este núcleo pode ser visto como uma “super-entidade” (super-entity) o que levanta questões importantes tanto para pesquisadores como para os que traçam políticas.”(1)

Para demostrar como este travamento acontece, os autores analisam a estrutura mundial do controle corporativo. O controle é aqui definido como participação dos atores econômicos nas ações, correspondendo “às oportunidades de ver os seus interesses predominarem na estratégia de negócios da empresa”. Ao desenhar o conjunto da teia de participações, chega-se à noção de controle em rede. Esta noção define o montante total de valor econômico sobre a qual um agente tem influência.

O modelo analisa o rendimento operacional e o valor econômico das corporações, detalha as tomadas mútuas de participação em ações (mutual cross-shareholdings) identificando as unidades mais fortemente conectadas dentro da rede. “Este tipo de estruturas, até hoje observado apenas em pequenas amostras, tem explicações tais como estratégias de proteção contra tomadas de controle (anti-takeover strategies), redução de custos de transação, compartilhamento de riscos, aumento de confiança e de grupos de interesse. Qual que seja a sua origem, no entanto, fragiliza a competição de mercado… Como resultado, cerca de ¾ da propriedade das firmas no núcleo ficam nas mãos de firmas do próprio núcleo. Em outras palavras, trata-se de um grupo fortemente estruturado (tightly-nit) de corporações que cumulativamente detêm a maior parte das participações umas nas outras”. (5)

Este mapeamento leva por sua vez à análise da concentração do controle. A primeira vista, sendo firmas abertas com ações no mercado, imagina-se um grau relativamente distribuído também do poder de controle. O estudo buscou “quão concentrado é este controle, e quem são os que detêm maior controle no topo”. Isto é uma inovação relativamente aos numerosos estudos anteriores que mediram a concentração de riqueza e de renda. Segundo os autores, não há estimativas quantitativas anteriores sobre o controle. O cálculo consistiu em identificar qual a fração de atores no topo que detém mais de 80% do controle de toda a rede. Os resultados são fortes: “Encontramos que apenas 737 dos principais atores (top-holders) acumulam 80% do controle sobre o valor de todas as empresas transnacionais (ETN)… Isto significa que o controle em rede (network control) é distribuído de maneira muito mais desigual do que a riqueza. Em particular, os atores no topo detêm um controle dez vezes maior do que o que poderia se esperar baseado na sua riqueza.”(6)

Combinando o poder de controle dos atores no topo (top ranked actors) com as suas interconexões, “encontramos que, apesar de sua pequena dimensão, o núcleo detém coletivamente uma ampla fração do controle total da rede. No detalhe, quase 4/10 do controle sobre o valor econômico das ETNs do mundo, através de uma teia complicada de relações de propriedade, está nas mãos de um grupo de 147 ETNs do núcleo, que detém quase pleno controle sobre si mesmo. Os atores do topo dentro do núcleo podem assim ser considerados como uma “super-entidade” na rede global das corporações. Um fato adicional relevante neste ponto é que ¾ do núcleo são intermediários financeiros.”

O Nó Da Gravata Borboleta

Exemplo de algumas conexões financeiras internacionais. Em vermelho, grupos europeus, em azul norte-americanos, outros países em verde. A dominância dos dois primeiros é evidente, e muito ligada à crise financeira atual. Somente uma pequena parte dos links é aqui mostrada. Fonte Vitali, Glattfelder e Fattiston, http://j-node.blogspot.com.br/2011/10/network-of-global-corporate-control.html

 Os números em si são muito impressionantes, e estão gerando impacto no mundo científico, e vão repercutir inevitavelmente no mundo político. Os dados não só confirmam como agravam as afirmações dos movimentos de protesto que se referem ao 1% que brinca com os recursos dos outros 99%. O New Scientist reproduz o comentário de um dos pesquisadores, Glattfelder, que resume a questão: “Com efeito, menos de 1% das empresas consegue controlar 40% de toda a rede”. E a maioria são instituições financeiras, entre as quais Barclays Bank, JPMorgan Chase&Co, Goldman Sachs e semelhantes.[4]

Andy Haldane, diretor executivo de estabilidade financeira no Bank of England em Londres, comenta que o estudo do ETH “nos deu uma visão instigante do melhor dos mundos para as finanças…Uma análise como a da ‘rede que conduz o mundo’ é bemvinda porque representa um salto para frente. Um ingrediente chave para o sucesso em outras áreas tem sido uma linguagem comum e acesso compartilhado de dados. No presente momento, as finanças não dispõem de nenhum dos dois.” Haldane também comenta a enorme escala do problema: “O crescimento em certos mercados e instrumentos financeiros tem ultrapassado de longe a lei de Moore que previu que o poder dos computadores dobraria a cada 8 meses. O estoque de contratos financeiros emitidos (outstanding financial contracts) atinge agora cerca de 14 vezes o PIB anual global”.[5]

Algumas implicações são bastante evidentes. Assim, ainda que na avaliação de alguns analistas, citados pelo New Scientist, as empresas se comprem umas as outras por razões de negócios e não para dominar o mundo, não ver a conexão entre esta concentração de poder econômico e o poder político constitui evidente falta de realismo.  Quando numerosos países, a partir dos anos Reagan e Thatcher, reduziram os impostos sobre os ricos, lançando as bases do agravamento recente da desigualdade planetária, não há dúvidas quanto ao poder político por trás das iniciativas. A lei recentemente passada nos Estados Unidos que libera o financiamento de campanhas eleitorais por corporações tem implicações igualmente evidentes.[6] O desmantelamento das leis que obrigavam as instituições financeiras a fornecer informações e que regulavam as suas atividades passa a ter origens claras.

Outra conclusão importante refere-se à fragilidade sistêmica que geramos na economia mundial. Quando há milhões de empresas, há concorrência real, ninguém consegue “fazer” o mercado, ditar os preços, e muito menos ditar o uso dos recursos públicos. Esses desequilíbrios se ajustam com inúmeras alterações pontuais, assegurando uma certa resiliência sistêmica. Com a escalada atual do poder corporativo, as oscilações adquirem outra dimensão. Por exemplo, com os derivativos em crise, boa parte dos capitais especulativos se reorientou para commodities, levando a fortes aumentos de preços, frequentemente atribuídos de maneira simplista ao aumendo da demanda da China por matérias primas. A volatilidde dos preços de petróleo, em particular, está diretamente conectada a estas estruturas de poder.[7]

Os autores trazem também implicações para o controle dos trustes, já que estas políticas operam apenas no plano nacional: “Instituições antitruste ao redor do mundo acompanham de perto estruturas complexas de propriedade dentro das suas fronteiras nacionais. O fato de series de dados internacionais bem como métodos de estudo de redes amplas terem se tornado acessíveis apenas recentemente, pode explicar como esta descoberta não tenha sido notada durante tanto tempo”(7) Em termos claros, estas corporações atuam no mundo, enquanto as instâncias reguladoras estão fragmentadas em 194 países, sem contar a colaboração dos paraisos fiscais.

Outra implicação é a instabilidade financeira sistêmica gerada. Estamos acostumados a dizer que os grandes grupos financeiros são demasiado grandes para quebrar. Ao ver como estão interconectados, a imagem muda, é o sistema que é grande e poderoso demais para que não sejamos todos obrigados a manter os seus privilégios. “Trabalhos recentes têm mostrado que quando uma rede financeira é muito densamente conectada fica sujeita ao risco sistêmico. Com efeito, enquanto em bons tempos a rede parece robusta, em tempos ruins as empresas entram em desespero simultaneamente. Esta característica de ‘dois gumes’ foi constatada durante o recente caos financeiro” (7).

Ponto chave, os autores apontam para o efeito de poder do sistema financeiro sobre as outras áreas corporativas. “De acordo com alguns argumentos teóricos, em geral, as instituições financeiras não investem em participações acionárias para exercer controle. No entanto, há também evidência empírica do oposto. Os nossos resultados mostram que, globalmente, os atores do topo estão no mínimo em posição de exercer considerável controle, seja formalmente (por exemplo votando em reuniões de acionistas ou de conselhos de administração) ou através de negociações informais”. (8)

Finalmente, os autores abordam a questão óbvia do clube dos super-ricos:  “Do ponto de vista empírico, uma estrutura em “gravata borboleta” com um núcleo muito pequeno e influente constitui uma nova observação no estudo de redes complexas. Supomos que possa estar presente em outros tipos de redes onde mecanismos de “ricos-ficam-mais-ricos” (rich-get-richer) funcionam… O fato do núcleo estar tão densamente conectado poderia ser visto como uma generalização do fenômeno de clube dos ricos (rich-club phenomenon).” (8) A presença esmagadora dos grupos europeus e americanos neste universo sem dúvida também ajuda nas articulações e acentua os desequilíbrios.

Conclusões gerais a se tirar? Não faltam na internet comentários de que o fato de serem poucos não significa grande coisa. Na minha análise, é óbvio que se trata sim de um clube de ricos, e de muito ricos, que se apropriam de recursos produzidos pela sociedade em proporções inteiramente desproporcionais relativamente ao que produzem. Trata-se também de pessoas que controlam a aplicação de gigantescos recursos, muito mais do que a sua capacidade de gestão e de aplicação racional. Um efeito mais amplo é a tendência de uma dominação geral dos sistemas especulativos sobre os sistemas produtivos. As empresas efetivamente produtoras de bens e serviços úteis à sociedade teriam todo interesse em contribuir para um sistema mais inteligente de alocação de recursos, pois são em boa parte vítimas indiretas do processo. Neste sentido, a pesquisa do ETH aponta para uma deformação estrutural do sistema, e que terá em algum momento de ser enfrentada.[8]

E quanto ao que tanto preocupa as pessoas, a conspiração? A grande realidade que sobressai da pesquisa, é que nenhuma conspiração é necessária. Ao estarem articulados em rede, e com um número tão diminuto de pessoas no topo, não há nada que não se resolva no campo de golfe no fim de semana. Esta rede de contatos pessoais é de enorme relevância. Mas sobretudo, sempre que os interesses convergem, não é necessária nenhuma conspiração para que os defendam solidariamente, como na batalha já mencionada para se reduzir os impostos que pagam os muito ricos, ou para se evitar taxação sobre transações financeiras, ou ainda para evitar o controle dos paraísos fiscais. O resultado é esta dupla dinãmica de intervenção organizada para a proteção dos interesses sistêmicos, resultando em corporativismo poderoso, e o caos competitivo que trava qualquer organização sistêmica racional.  Gigantismo que abraça muito mais recursos do que a capacidade de gestão. Demasiado fechado e articulado para ser regulado por mecanismos de mercado, poderoso demais para ser regulado por governos eleitos, incapaz de administrar os gigantescos volumes de recursos que controla, o sistema financeiro mundial gira solto, jogando com valores que representam cerca de 14 vezes o PIB mundial.[9]


O caos financeiro planetário, em última instância, tem uma origem bastante clara, de poucos atores. No pânico mundial gerado pela crise, debatem-se as políticas de austeridade, as dívidas públicas, a irresponsabilidade dos governos, deixando na sombra o ator principal, as instituições de intermediação financeira. No inicio do pânico da crise financeira, em 2008, a publicação do FMI Finance & Development estampou na capa em letras garrafais a pergunta “Who’s in charge?”, insinuando que ninguém está coordenando nada. Para o bem ou para o mal, a pergunta está respondida.

O estudo do ETH abriu uma janela importante para a abordagem científica do poder global das corporações, com implicações óbvias para as ciências econômicas, políticas, sociais, de relações internacionais e outras. A verdade é que temos ignorado o elefante que está no centro da sala.

Anexo

Abaixo, a lista das primeiras 50 corporações listadas. Note-se que na classificação por setor (NACE Code), os números que começam por 65, 66 e 67 correspondem a instituições financeiras. Lehman Brothers tem direito a uma nota a parte dos autores.


[1] Ladislau Dowbor é professor da PUC-SP nas árees de economia e administração, e consultor de várias agências das Nações Unidas. Autor de Democracia Econômica e de numerosos estudos disponíveis online em http://dowbor.org ou http://www.dowbor.org/wp – Contato ladislau@dowbor.org

[2] Há uma grande diferença entre suspeitar a existência de um fato, e demonstrá-lo empiricamente” – Vitali, Glattfelder e Battiston – http://j-node.blogspot.com/2011/10/network-of-global-corporate-control.html

[3] S. Vitali, J.B Glattfelder e S. Battiston – The Network, of Global Corporate Control –  Chair of Systems Design, ETH Zurich – corresponding author sbattiston@ethz.ch – O texto completo foi disponibilizado em arXiv em pré-publicação, e publicado pelo PloS One em 26 de outubro de 2011.  A ampla discussão internacional gerada, com respostas dos autores da pesquisa, pode ser acompanhada em http://j-node.blogspot.com/2011/10/network-of-global-corporate-control.html

[4] New Scientist (em português): http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=rede-capitalista-domina-mundo&id=010150111022&mid=50#.V-h9MtYy1hE e original inglês
https://www.newscientist.com/article/mg21228354-500-revealed-the-capitalist-network-that-runs-the-world/

[5]Andy Haldane, The Money Forecast, New Scientist, 10 December 2012; o fato deste “mercado de papel” que gira no sistema caótico e não regulado atingir este volume é simplesmente assustador. Sobre os mercados de derivativos, veja-se a excelente apresentação The Mechanics of the Derivative Markets. Este último estudo traz uma clara definição da especulação financeira: “Speculators use derivatives to seek profits by betting on the future direction of market prices of the underlying asset. Hedge funds, financial institutions, commodity trading advisors, commodity pool operators, associate brokers, introducing brokers, floor brokers and traders are all considered to be speculators” – IEA – p. 9 http://omrpublic.iea.org/special_sup_apr11.pdf, abril 2011. O BIS de Basiléia apresenta um volume de 601 trilhões de dólares de derivativos emitidos (situação em Dez. de 2010) para um PIB mundial da ordem de 55 trilhões  – Bank for International Settlements –  Committee on the Global Financial System – The macrofinancial  implications of alternative  configurations for access to  central counterparties in  OTC derivatives markets   – http://www.bis.org/publ/cgfs46.pdf – ISBN 92-9131-895-7 (print)  ISBN 92-9197-895-7 (online). Ver em particular a tabela da p. 4

[6] Hazel Henderson comenta este impacto para a democracia americana com um artigo forte: The best congress  money can buy, www.ipsnews.net/columns.asp?idnews=50338    Paul Krugman e Robin Wells, por sua vez, lembram que “é difícil encontrar um sentido na capacidade crecente dos banqueiros de conseguir que as regras sejam reescritas a seu favor, se não se menciona o papel do dinheiro na política, e como este se expandiu com um câncer nos últimos 30 anos”. Paul Krugman e Robin Wells, Por qué las caídas son cada vez maiores?Nueva Sociedad N. 236, nov-dic. 2011, www.nuso.org

[7] O aumento do risco sistêmico nos grandes sistemas integrados é estudado por Stiglitz em Risk and Global Economic Architecture, 2010,  http://www.nber.org/papers/w15718.pdf

[8] Krugman e Wells resumem bem a questão central que é a do desvio de recursos necessários ao fomento da economia para atividades especulativas: ”Apesar de ciertas reivindicaciones académicas (originadas en su mayoría en las escuelas de negocios), las enormes sumas de dinero canalizadas a través de Wall Street no produjeron una mejora en la capacidad productiva de EEUU mediante la ‘asignación eficiente de capital para su mejor aprovechamiento’. Por el contrario, la productividad del país disminuyó al dejar el capital librado a la argucia financiera, los paquetes de compensación absurdos y las valuaciones bursátiles infectadas por la burbuja” – Paul Krugman e Robin Wells, Por qué las caídas son cada vez mayores, Nueva Sociedad N. 236, Nov.-Dic. 2011, p. 212 – www.nuso.org

[9] Haldane, no artigo citado acima, reforça bem esta ausência de organização sistêmica do mundo financeiro: ”Historicamente, as finanças não foram pensadas como um sistema. Em vez disto, a teoria financeira, a regulação e a organização de dados se focaram em firmas individuais. Juntar os pontos nunca foi a tarefa de ninguém. A ciência econômica sempre esteve desesperada em lustrar as suas credenciais científicas e isto significava ancorá-la nas decisões de pessoas individuais. O erro vem de se pensar que o comportamento do sistema era apenas uma versão agregada do comportamento do indivíduo. Quase por definição, sistemas complexos não se comportam assim. As interações entre os agentes são o que importa.” – Andy Haldane, The Money Forecast, New Scientist 10 December 2011, p. 28 – Caótico na busca da maximização dos lucros e de emissão de papéis cada vez mais frágeis, mas com reação sistêmica poderosa frente a qualquer tentativa de regulação externa, trata-se de um novo espécimen de agente econômico, e perigoso.


Nota do Projeto TB: nada do que foi observado nesta análise do professor pode ser alterado de alguma forma na atualidade, a não ser afirmarmos que este domínio se encontra hoje muito mais fortalecido. Fusões e canibalismo prosseguiram sem alterações, assim como, aquisições de empresas estatais abocanhadas por valores intrigantemente baixos. Enquanto corporações se robustecem, o Estado moderno se encontra em condições sempre mais fragilizadas de enfrentar exigências sempre mais assombrosas do patronato. TPP (Transpacific Partnership) e TTIP (Transatlantic Trade and Investiment Partnership) comprovam que os jogadores jogam com equipamentos totalmente diferentes. Um lado se apresenta com o que há de mais moderno em armamentos para o abate global, enquanto o outro, ainda se encontra na era do estilingue e da zarabatana.

Por outro lado a percepção que algumas vozes têm sobre a realidade contemporânea é destoante do mundo real: "Assim, ainda que na avaliação de alguns analistas, citados pelo New Scientist, as empresas se comprem umas as outras por razões de negócios e não para dominar o mundo, não ver a conexão entre esta concentração de poder econômico e o poder político constitui evidente falta de realismo". Repare que é identificado o cuidado em evitar falar de conspiração, enquanto que na frieza dos fatos, algumas declarações e atitudes dos agentes que operam no centro desta gravata borboleta, estas declarações e atitudes são completamente condizentes com tramas conspiratórias. George Soros e David Rockefeller são exemplos claros do que acabo de afirmar.

Este artigo do Professor, se situa entre aqueles que não saem da caixola. É tão assustador quanto verdadeiro.




O Colapso Épico Do Deutsche Bank


Uma linha do tempo mostrando a queda de uma das instituições financeiras mais emblemáticas da Europa 

por: Jeff Desjardins [*]

08/07/2016

Para Onde Caminha A Humanidade


Publicado em "The Chart Of The Week". Periódico semanal.

O destino de uma das instituições financeiras mais importantes da Europa parece estar selado. Após uma sequência contundente de escândalos, decisões equivocadas e infelizes acontecimentos, as ações Deutsche Bank, sediado em Frankfurt, desvalorizaram em 48% apenas neste ano, chegando a US $ 12,60, o que é um recorde de baixa.
 
Ainda mais impressionante é a visão de longo prazo da espiral descendente da instituição alemã. Com um modesto U$15.800.000.000 em valor de mercado, as ações da instituição de 147 anos atingiram um reles 8% do seu preço de pico registrado em Maio de 2007.
 

O começo do fim

Se as falências de Lehman Brothers e Bear Stearns foram rápidas e indolores, a trilha do desaparecimento do Deutsche Bank tem sido longa, prolongada e dolorosa.
 
Nos últimos tempos, o setor de investimento do Deutsche Bank é considerado como dos maiores do mundo, comparável em tamanho a Goldman Sachs, JP Morgan, Bank of America e Citigroup. No entanto, ao contrário dos outros bancos, o Deutsche Bank vem cambaleando ferido desde a crise financeira, e o banco alemão nunca foi capaz de se recuperar totalmente.

É irônico, porque, em 2009, o CEO da empresa Josef Ackermann corajosamente proclamou que o Deutsche Bank tinha muito capital, e que estava resistindo a crise melhor do que os seus concorrentes. Descobriu-se, contudo, que o banco estava realmente escondendo 12 bilhões de dólares em perdas para evitar uma ajuda do governo (essa só pode ser piada, n.d.t.). Enquanto isso, a maior parte do dinheiro que o banco faturou durante este período turbulento nos mercados foi resultante da manipulação das taxas Libor. Esses "ganhos" foram de curta duração, uma vez que a eventual multa para acabar com a jogada da Libor acabaria alcançando um recorde de U$2,5 bilhões. O banco finalmente teve que admitir que ele realmente precisava de mais capital. Em 2013, ele levantou €3 bilhões, com uma emissão de direitos, alegando que fundos adicionais não seriam necessários. Então em 2014 o banco perdeu a cabeça e começou a levantar € 1,5 bilhão, e depois disso, outros 8 bilhões de euros.
 

Uma Série de Desgraças

Nos últimos anos, o Deutsche Bank vem tentado se reinventar desesperadamente. Tendo passado por vários CEOs desde a crise financeira, a mais recente tentativa de reinvenção envolve uma grande revisão das operações e pessoal anunciadas pelo co-CEO John Cryan, em outubro de 2015. O banco está agora no processo de corte de 9.000 funcionários e suspendendo as operações em 10 países. Este é o lugar onde nosso cronograma dos problemas mais recentes do Deutsche Bank começa, e os últimos seis meses, em particular, têm sido rápidos e furiosos. Deutsche Bank começou o ano anunciando uma perda de recorde em 2015 de €6,8 bilhões.
 
Cryan realizou um festim de public relations, proclamando que o banco era uma "rocha sólida". O próprio ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, veio à público garantir que ele não tinha "preocupações" sobre o Deutsche Bank.
Por entre as linhas: as coisas estão em modo de crise total.
 
Nas semanas seguintes, aqui está o que aconteceu:
  • 16 de maio de 2016: Berenberg Bank adverte que os problemas do DB podem ser "intransponíveis", notando que o banco está mais do que 40 vezes alavancado. 
  • 2 de junho de 2016: Dois ex-empregados do DB são arrolados no inquérito sobre a manipulação das taxas de juros US Libor. Enquanto isso, a Financial Conduct Authority do Reino Unido diz que há pelo menos 29 empregados do banco envolvidos no escândalo.
  • 23 de junho de 2016: a decisão Brexit é um duro golpe contra o DB. O banco é o maior banco europeu em Londres e recebe 19% de suas receitas provenientes do Reino Unido.
  • 29 de junho de 2016: FMI emite declaração de que o "DB parece ser o contribuidor líquido mais importante dos riscos sistêmicos."
  • 30 de junho de 2016: Federal Reserve anuncia que o DB falhou no teste de estresse do Fed nos EUA, devido à "má gestão dos riscos e planejamento financeiro".
Não soa como uma "rocha sólida", não é?
Agora a verdadeira questão: o que ocorre com o livro de derivativos do Deutsche Bank, que tem um valor nominal de €52 trilhões, se o banco é insolvente?
 
[*] Jeff Desjardins é um dos fundadores e editor de Visual Capitalist um website de criação e curadoria de conteúdo visual em investimentos e negócios.

Original em:
http://www.visualcapitalist.com/chart-epic-collapse-deutsche-bank/






sábado, 24 de setembro de 2016

O Capitalismo Em Estado Comatoso Respira Por Aparelhos

Estaríamos presenciando o baile da Ilha Fiscal do capitalismo?


O último baile da monarquia brasileira - antes de sua queda - na Ilha Fiscal.
A oligarquia financeira mundial se apossou de todo o sistema e impõe o jogo que lhe interessa. A desindustrialização do ocidente, a financeirização, a precarização do trabalho, o Estado a mercê dos ditames dela, oligarquia. Estas são evidências claras de que algo vai de mal a pior. Os agentes parecem encaminhar o sistema para um final de linha lamentavelmente amargo onde aparentemente só nos resta aguardar pelo retumbante desenlace final. Um sistema completamente apartado da sociedade em cujas entranhas as grandes instituições financeiras mundiais chocaram o ovo daquilo que virá dar cabo do doente terminal. Pirâmides financeiras, off-shores, lavagem de dinheiro dos mais diversos tipos, canibalização da concorrência, bolhas e mais bolhas... Tudo faz parte do diagnóstico. Doenças de cunho moral para as quais ainda não foram encontrados os remédios.


Presenciamos nestes Tempos Bicudos um jogo de camuflagem, onde a elite financeira tenta ocultar o máximo possível o trem descarrilado dos olhos da sociedade. Para infelicidade destes manipuladores assistimos as pessoas despertando para o que de fato anda ocorrendo debaixo dos seus narizes. Todo o sistema financeiro mundial está a beira do precipício e tudo tem sido feito para atrasar o seu despencar [1]. Um ônibus sem freio onde os passageiros somos todos nós e que está prestes a desabar ladeira abaixo, é o modelo perfeito para descrever o quadro que está sendo pintado.

Tudo leva a crer que estamos no limiar da formação de um novo sistema que virá para substituir o desgastado capitalismo, onde a oligarquia financeira globalista terá uma preponderância ainda mais dramática nos rumos do planeta, se assim permitirmos. Nestes nossos dias países do ocidente funcionam como braço armado desta elite, pegando pesado e tentando manter o núcleo de todo este sistema sob as rédeas dos seus patrões. A queda dos Estados soberanos, das barreiras nacionais, são alvos primordiais de toda esta trama. Um governo mundial único sob o controle das mega corporações, que tem o setor financeiro como vasta maioria, inclusive já foi discurso de um dos grandes planejadores [1] de todo o mal que nos acomete. Um plano acobertado por um sistema de desinformação, cujo agente desinformante é justamente o meio onde as pessoas se abastecem de informação. Uma mídia completamente comprometida com o patronato global. A realidade anda a ser esculpida nas editorias de jornais, telejornais, revistas, cinema. Tudo que possa contribuir com uma realidade favorável àqueles a quem devem obediência.

A esperança que o homem depositou no próprio futuro na virada do século aos poucos vem sendo minada. Vivíamos entusiasmados com o desenvolvimento tecnológico que andava a passos largos, com descobertas científicas que insinuavam dias fabulosos que estavam por vir. Direitos civis. Justiça social. Tudo isso ficou como que um retrato colado nas paredes do século XX. Hoje somente um tolo completamente desinformado não consegue enxergar claras evidências de que o retrato na parede é apenas a lembrança de que a humanidade, sob a doutrina do capitalismo, já viveu seus melhores dias. Fechar os olhos para a realidade na tentativa de não criar, digamos, egrégoras negativas ou elementais, não farão com que estes  desapareçam como por passe de mágica. Temos que criar barricadas, usar nossas armas. Se continuarmos negando o óbvio, se permitirmos que as coisas atinjam níveis ainda mais alarmantes, aí então, a tática do "Deus nos acuda" será a conduta adotada até por quem é ateu.

Concordo absolutamente de que vivemos um final de ciclo histórico e que o que estamos presenciando é o canto do cisne de um sistema que teve seu princípio, apogeu e declínio. O perigo é que a velha guarda, a nefasta velha guarda, tramou a ruína do sistema que garantiu seu próprio agigantamento e agora quer colocar em prática uma nova via político/econômica para o planeta. E se para isso a guerra se fizer necessária, dela não abrirá mão.

Uma hipótese cada dia mais evidente é a guerra apoiada por estudos geoestratégicos. Não se trata de um plano recente. Há muitos registros dele desde o início do século XX. Planos geoestratégicos comprovam que a guerra é uma cartada possível e está sobre a mesa de grupos que se desgarraram de qualquer vínculo com a cidadania. Otan, think tanks não têm qualquer compromisso com a humanidade. O compromisso destes grupos é notório para com o complexo industrial militar [2] e gigantescos oligopólios.  Joseph Mackinder foi pai e planejador do temor russo e este temor hoje está a se avolumar. A russofobia está a servir de instrumento de alguns ilusionistas que querem desviar os holofotes de suas trapaças obscuras para uma espécie de nova guerra fria, que pode perfeitamente esquentar rapidamente. O foco deve ser desviado daquilo que está prestes a vir a tona. O desabar de todo o sistema financeiro, carregando consigo o capitalismo. A geoestratégia funcionando como uma maneira extremamente eficaz de acobertar esta sujeirada monumental onde os globalistas fazem a festa. 

O plano do patronato global tem encontrado campo fértil nas mentes e atitudes daqueles que não têm visão histórica dos acontecimentos, daqueles que vivem a espera da black friday, do lançamento do último smartphone, daqueles sem pensamento crítico que bebem de toda informação que jorra da mídia alinhada como se fosse verdade absoluta, inquestionável. Daqueles acampados diante da tv com os olhos pregados em infinitas novelas, partidas de futebol por todos os dias da semana, em todos os horários.

O mais infeliz e trágico de tudo isso é a certeza de que o ocidente se tornou o exportador  do materialismo, do individualismo, da democracia, do imediatismo, do endeusamento do dinheiro e da ganância na base do porrete. Sobre a ganância, já houve até quem a decantasse elogiosamente, em verso e prosa, como grande promotora do avanço da civilização ocidental. Não satisfeito em ter mergulhado de cabeça nesse universo irresponsável, o que lhe confere este ar de terra arrasada, o ocidente tenta agora fazer com que seu inferno se espalhe por todo o globo. Hoje bate as portas de grande parte do Oriente. As cascas de banana foram deixadas ao chão e imprudente será aquele que andar por entre elas as carreiras. Os não alinhados que se cuidem, uma gangue de doutrinadores praticantes de sanções, desfilam por salões mundo afora com seus dedos em riste acusando todos aqueles que insistem em não se subjugar ao poder hegemônico global.


O Ocidente, ao trilhar este caminho sem volta, não apenas conduziu a si mesmo para um beco sem saída, como também causou danos irreparáveis para as demais nações do planeta.  O mal tornou-se global e universal, portanto, não há como fechar os olhos para os acontecimentos dos nossos dias e simplesmente fingir que tudo chegará a bom termo. Infelizmente os fatos tomaram um caminho sem retorno. Uma gigantesca metástase tomou conta de todo o sistema e para extirpar toda a doença será necessário arrancar todo o complexo de catástrofes planejadas, todas as minas plantadas.

Do inimigo temos a certeza absoluta de quem se trata. São sempre aqueles que tramam e tramaram a exaustão todas as crises cíclicas do capitalismo, inclusive guerras. São aqueles que através do sistema financeiro se tornaram inexpugnáveis às leis e marginais às regras de mercado. Os mesmos que crise após crise reduzem a concorrência por meio da falência, da canibalização, e se tornam mais fortes, mais poderosos, não somente mas principalmente devido à elas. Aqueles que se esmeram na falência dos Estados nacionais e sucateamento do bem público, ao ponto da própria população entoar o mantra que mais agrada aos seus ouvidos. No meio do caos planejado, a privatização é certeira. 

Se trata então de uma oligarquia global, onde toda a estratégia política, financeira e econômica, e onde o núcleo estratégico-militar da elite mundial, como também, uma ampla rede de intelectuais, estão a operar ao serviço dela, oligarquia. Impérios midiáticos, cooperam com protagonismo em toda encenação. Se trata de um grupo extremamente atomizado que trabalha por um globalismo de mão única, onde os gigantescos oligopólios manterão controle sobre cada indivíduo e todos os recursos planetários. Deste objetivo também fazem parte, além dos magnatas financeiros, os agentes da globalização que os servem, as agências de informação (CIA, NSA, Mossad...), quinta colunas infiltrados nas estruturas dos Estados nacionais que ainda não se encontram totalmente alinhados ao controle hegemônico... Todo o sistema de corrupção mundial: suborno, influência... A perseguição sistemática aos indesejados desalinhados operada pela mídia... ONGs, multinacionais, missões políticas e diplomáticas...

Estas forças percebidas e conhecidas fizeram do planeta o que ele é. O colocaram onde ele se encontra neste momento. Os globalistas oligarcas são portanto o alvo de nossa luta. São estes os nossos verdadeiros inimigos e contra eles é que temos que unir forças.


[1] "Estamos gratos ao The Washington Post, ao The New York Times, à Time Magazine e a outras publicações cujos diretores estiveram presentes nas nossas reuniões e respeitaram as suas promessas de discrição durante quase quarenta anos. Ter-nos-ia sido impossível desenvolver o nosso plano para o mundo se tivéssemos estado sujeitos aos holofotes da atenção pública durante esses anos. Mas, o processo está agora muito mais sofisticado e preparado para avançar rumo a um governo mundial. A soberania supranacional de uma elite intelectual e banqueiros mundiais é certamente preferível à autodeterminação nacional praticada nos últimos séculos." David Rockefeller.

[2] https://www.youtube.com/watch?v=luEIV6q1pxI
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